Desenhando a Cultura do Estupro

Não se trata apenas de aborto, se trata da Vida. Mas VIDA DE QUEM?

El Salvador: no país que penaliza a mulher pelo aborto até em situação de estupro, mulheres pedem liberdade. Com penas que podem chegar a 40 anos de prisão, mães são consideradas culpadas mesmo quando não realizam o aborto, mas seus filhos nascem mortos (Pragmatismo Político)*

Gravidez, aborto e direitos da mulher

Mulheres de El Salvador: engravidar pode ser uma sentença de morte. Via Pragmatismo Político

Não se trata apenas do aborto, se trata da Vida. Mas VIDA DE QUEM?

Quando ouço sobre aborto fico sempre com aquela sensação de que estamos falando de algo proibido. E não é? Mas não estamos olhando muito superficialmente? Veja o lado nada bom sobre ser mulher nesse mundo.

Desde pequenas somos treinadas para sermos mães. Nos ensinam que ser mãe é a missão da mulher e que nenhuma mulher pode ser completa sem isso. Fomos feitas para isso. Então aprendemos a cuidar, a amamentar, trocar fraldas e ninar. O que tem de errado nisso? Nada. É importante trazer essa noção de carinho e cuidado, mas é algo que deveria fazer parte da vida dos meninos também. Talvez assim deixássemos de ser mães solteiras desde crianças, quando brincamos com nossas bonecas, filhas sem pais.

O mundo nos apresenta tantas regras que vamos nos moldando conforme o padrão. Feche as pernas, não brinque disso, não fale assim, prefira o rosa, seja delicada, tire a mesa. Em outros tempos ou até nesse mesmo: case-se, seja boa esposa, seja boa amante, boa dona de casa. Antes: não podia estudar, não podia votar, não podia escolher, não podia gritar. Aborto? Fogueira!

Situação 1

O corpo dilacerado, dor, machucados, estupro. Pode abortar no Brasil. Mas em qual hospital, após quanta humilhação? Enquanto isso, a culpa, o medo, o nojo, a vergonha, a raiva, o sistema, a sociedade. Haaa… como a sociedade pesa. A alma dilacerada. Trauma. Nunca mais a mesma. A vida de uma mulher, ou menina, marcada.

*Já em El Salvador: “Ela conta que ficou grávida em decorrência de um estupro e que nunca fez pré-natal. Sua ex-patroa a obrigou a permanecer dentro de casa para evitar que Mayra fizesse alguma denúncia, já que o estuprador era sobrinho de sua patroa. (…) teve complicações obstétricas e deu à luz um natimorto (…) Mayra, que na época tinha 18 anos de idade, lembra que acordou algemada na cama de um hospital e foi acusada pela médica que a recebeu no centro de saúde de ter matado seu filho.”

Situação 2

Ela queria um filho, mas o feto está condenado.

*”El Salvador, Honduras, Nicarágua e República Dominicana são os países na América Latina que mantêm uma norma estrita, que criminaliza as mulheres que sofrem qualquer tipo de aborto.”

Qualquer tipo de aborto inclui o espontâneo, no qual o próprio corpo reage naturalmente. Outros tipos de aborto incluem também as complicações obstetrícias e partos extra-hospitalares. Abortos comprados em clínicas clandestinas. Já pensou o desespero dessa mulher? Mas ela não tem decisão, pois o sistema toma a decisão.

A palavra de uma mulher fruto de um estupro

“Por ser fruto de um estupro, me sinto até mesmo no direito moral de ser a favor do aborto. (…) Eu acho que falta promover a igualdade, no sentido de que nós, mulheres, tenhamos autonomia sobre nossos próprios corpos e que possamos decidir por nós mesmas como ter um filho afetará nossas vidas e a da criança inocente. Sem interferência de religião, a mulher necessita ter esse direito e centros de apoio moral e psicológico. Vamos supor que homens pudessem engravidar, vocês acham que o aborto já não estaria legalizado?

Leis como essa são criadas, pois vivemos num mundo cheio de pessoas ignorantes e incapazes de pensar no dano que um estupro causa à história de uma pessoa.

Devemos promover discussões saudáveis e positivas sobre o assunto em um aspecto geral, derrubar dogmas e aumentar a consciência de um assunto que é importante na vida de muitas pessoas. Trabalhar com comunidades locais oferecendo suporte psicológico, oferecer uma plataforma neutra onde a mulher tenha espaço, sem ser julgada, e analisar realisticamente os prós e contras da gravidez. E que a mulher possa fazer sua própria decisão.” Cláudia Salgado, 28 anos.

Leia mais sobre a história de Cláudia em Pragmatismo Político.

 

Minha saia não é licença para abuso sexual

Minha saia não é licença para abuso sexual

 Sobre abuso sexual:

1- A culpa nunca é da vítima.

2- A culpa não é da saia curta ou do olhar que o cara acha que recebeu.

3- Não é Não.

Você sabe o que significa abuso sexual?

Abuso sexual é algo imposto por meio de força, não é um ato desejado por ambas as partes, é uma violência. O agressor sempre é o culpado, nunca a vítima. Geralmente os agressores dizem ter sido provocados e até mesmo usam a justificativa do tamanho da roupa da mulher, que é levada em consideração para o ato repugnante. Esse é o machismo nosso de cada dia.

O Ato de abusar

A vítima fica incapaz de negar consentimento, ou por ser mais fraca, ou por coação por arma, medo, extrema violência, coação emocional e moral. Muitas não denunciam por vergonha. Nossa sociedade também julga as pessoas agredidas. O abuso sexual pode ocorrer de qualquer lado. Muitas vezes acontece dentro da própria casa, cometido por parentes e amigos da família. Algumas vítimas podem até mesmo se tornar abusadores no futuro.

Tipos de abuso sexual

Existem diversos tipos de abuso, dentre eles: pedofilia, estupro, assédio sexual e exploração sexual, que ocorre muito no caso de tráfico de pessoas, especialmente de mulheres.

 

Como denunciar casos de abuso sexual

1-  Entenda que a culpa nunca é da vítima.

2- Vamos perder o medo de denunciar e romper com o silêncio.

Denúncias em casos de crianças e adolescentes, procure:

  • Conselhos Tutelares ou  Varas da Infância e da Juventude; Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente;

  • ou DISQUE 100.

Denúncias em casos de abusos contra Mulheres:

  • Delegacias da Mulher;

  • DISQUE 100 OU 180.

Vamos romper o pacto de silêncio. Não é vergonha denunciar. Não alimente essa violência.

 

Nanda Soares para Why Menina

 

Coisas que mulheres não conseguem fazer em paz por causa dos homens

A culpa é sua. A culpa é minha?

Quem manda fazer coisas como:

  • Andar na rua de saia (nem precisa ser saia curta, mas se for, já vira puta).  

  • Sair à noite. Como assim? Curtir uma balada ou sair sozinha? (perigoso hein)

  • Caminhar pelas ruas do bairro em uma tarde tranquila (até um cara cruzar com você na rua e, aproveitando que não tem ninguém perto,  dizer que está de pau duro). 

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Photo by rockcanyonroom – Why Menina

  • Usar decote em transporte público, na verdade, em qualquer lugar. (ora bolas, mulher tem que saber se vestir, se dar ao respeito. A burca deve ser uma boa opção). 

  • Usar roupas justas, na verdade, qualquer roupa. (Mas ir para a academia com roupa de ginástica? Aí é provocação. Esqueceram que as jaulas estão abertas?)

  • Passar na frente de uma obra. (Isso já está ultrapassado. Agora não dá para passar perto de nenhum grupo masculino. O negócio é atravessar a rua, mudar o caminho ou apertar o passo para evitar constrangimentos. Para eles é normal, diversão). 

  • Atravessar a rua na faixa de pedestres com os carros parados devido ao sinal vermelho. (Abaixe a cabeça e finja não ouvir obscenidades). 

As meninas sabem sobre isso: ande uns 5 quarteirões e colecione palavrinhas agradáveis, olhares e gemidos de homens que não conhece:

  • Delícia…

  • Linda. Que bundinha…

  • Chupava toda…gostosa..

  • Oi linda! Bom dia. (esse até parece educado, não fosse pela conotação sexual)

  • Que séria. Dá um sorriso… (vá ver se eu tô na esquina. Olha, vontade de xingar não falta. Mas vai que o cara vai atrás de você… melhor ignorar).

Agora, as perguntas que não posso calar: quem ensina isso para os meninos? Os pais? Será que gostariam de ver suas irmãs, filhas, mães, primas, amigas passando por isso? Até então, dizem: são só palavras, e olhar não mata.

Queria muito trocar de lugar com um homem por um dia. Talvez isso o fizesse entender o desrespeito, a sensação de ser observada o tempo todo, sabe-se lá com que intenções além das palavras. Talvez ele pudesse começar a entender essa história de viver com medo, de ter que conviver com a ideia de que o assédio é algo normal. Queria vê- lo mudando seu caminho para ter um pouco de paz. E queria vê-lo sentir a mesma indignação, insegurança e humilhação quando alguém pergunta a roupa da mulher que foi estuprada. Queria vê-lo na balada com roupas comportadas e ainda assim ser puxado pelo braço, sendo assediado, sem sossego para curtir a noite. Talvez assim, vivendo na pele as nossas angústias, possam tentar modificar suas ações e ensinar os meninos de hoje a se comportarem como homens de verdade no futuro.

Bullying, depressão e um balão prestes a estourar – Meninas de asas quebradas

Tudo em nós que parece não se encaixar aos padrões, é passível de bullying. Na escola, na academia, na família, na universidade, na rua, na internet. E agora? O bullying virtual está em todos os lugares e vemos cada vez mais histórias de meninas que, acuadas e pressionadas pelas ações de terceiros mal intencionados, entram em depressão, colapso nervoso, desenvolvem anorexia, bulimia e outros distúrbios que fazem mal a elas mesmas. Os outros: os outros continuam rindo, fingindo não ver, vivendo suas vidas.

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Bullying quebra asas – Ilustração de Nanda Soares para Why Menina

 

Com as redes sociais, vemos um campo aberto para disseminação de ofensas que podem afetar e até mesmo devastar a vida das pessoas. A autoestima e a segurança para seguir em frente é atropelada. Vemos por aí meninas de asas quebradas, presas em infernos astrais e pesadelos da vida real. É como se vivessem pisando em balões de gás, prestes a estourar. Lá embaixo, um abismo de exposição, olhares e julgamentos. Muitas vezes, o tombo é tão grande que leva à morte. Essa é uma metáfora para falar dos casos de meninas que sofrem tanta fadiga emocional que chegam ao suicídio.

A depressão altera o humor, o comportamento, o desejo, a saúde. A tristeza e medo persistentes mudam a pessoa que sofre com isso. E mudam suas relações no mundo. O caso de Amanda Todd, uma adolescente de 15 anos, é exemplo disso. As agressões teriam começado quando ela teve sua imagem exposta em um página no facebook criada para divulgar a jovem de topless. Como isso aconteceu? Aos 12 anos ela foi convencida a mostrar os seios pela internet e depois disso sua vida virou um pesadelo. A página se disseminou e os colegas da escola não deram trégua. Ela se mudou de casa e de várias escolas, mas o assédio foi além do que ela poderia suportar. Amanda se enforcou após a saga de sofrimento decorrente do cyberbullying. E isso não é um fato isolado. Por isso temos que refletir, informar, sensibilizar, prevenir e buscar formas de punir os agressores. A adolescente Rebecca Ann Sedwick, 12 anos, suicidou-se na Flórida, depois de passar mais de um ano sendo aterrorizada com  o bullying on-line dos colegas. Segundo a mãe da menina, sua filha recebia mensagens de texto como: “Você é feia”, “Por que você ainda está viva?” e “Se mate”.

Infelizmente, as testemunhas de bullying acabam se calando por medo de serem a próxima vítima. Mas esse comportamento precisa ser orientado para novas formas de empoderamento. As vítimas sofrem caladas e são sufocadas por ameaças, por calúnias em cima do acontecido, por palavras e atos hostis, além do isolamento. Quando isso acontece na escola, quais atitudes são tomadas pela direção e professores?

Reduzir a prevalência de bullying nas escolas pode ser uma medida de saúde pública altamente efetiva para o
século XXI. (Lopes Neto – Jornal de Pediatria – Sociedade Brasileira de Pediatria)

Bullying quebra asas, afoga o potencial de interação das pessoas, modifica sentimentos, agride, mata. A estudante Julia Gabriele, de 12 anos, foi vítima de cyberbullying no facebook, feito por contestáveis páginas de humor. Postaram suas fotos e fizeram brincadeiras desagradáveis sobre seus pelos faciais.A Revista Toda Teen contou o caso de Julia, seu desespero e a repercussão em sua família. Mãe e filha choraram e suplicaram para que parassem.

Me odeiam, mas eu nunca fiz nada para nenhum deles. (Julia)

Meninas, entendam: Bullying e cyberbullying são crimes. Denunciem!

@Nanda Soares para Why Menina

Por que slut shaming é errado?

Slut shaming

photo credit: Pensiero via photopin cc

 

Slut shaming, ou vergonha de vadia, “é o ato de criticar a mulher por sua atividade sexual real ou presumida, ou por se comportar de maneiras que alguém pensa que estão associados com a sua atividade sexual real ou presumida.”

Esse tipo de ação está diretamente ligada à cultua do estupro e é uma das formas de cyberbullying, que veio potencializar as agressões caracterizadas no bullying, disseminando-as rapidamente pela internet. A maioria das mulheres já passou por isso e muitas até praticam, se apropriando e externalizando o machismo nosso de cada dia. Não apenas as roupas, mas também o comportamento sexual e sexualidade são podados expressivamente por toda a sociedade. Quantas vezes já não ouvimos estupros serem “justificados” pelo tipo de roupa da mulher. Sim, se os estupradores não estão em jaulas, que as mulheres optem pelas burcas para não serem chamadas de oferecidas, ou atacadas. Ainda assim, seja com as mulheres de burca ou com as de shortinho, no mundo inteiro este crime persiste.

Numa sociedade machista, onde o NÃO supostamente significa “sim” para os homens, as mulheres ficam expostas e viram objetos de controle. Nessa cultura em que as roupas ou escolhas sexuais são apontadas e causam vergonha, as mulheres ficam à mercê do julgamento alheio. Vamos dar um basta nisso. Precisamos lutar para mudar esse pensamento que nos deixa prisioneiras da insegurança. E lembrem-se: internet também é mundo real e afeta as vidas das pessoas de modo direto.

*Nanda Soares para Why Meninas